Como foi abordado na matéria anterior, os andamentos naturais básicos executados pela maioria dos equinos são o passo, o trote, e o galope. O passo é o de menor importância para efeito de apresentação em competições. Ao contrário, existem inúmeros tipos de competições equestres que exigem o máximo do potencial do trote ou do galope. São andamentos mais utilizados em práticas esportivas.Com o fortalecimento crescente do papel social desempenhado pelos equinos, os andamentos especializados vêm ganhando projeção na equinocultura mundial, em particular a brasileira, que é a mais rica neste segmento. As variáveis na dinâmica de locomoção dos equinos são multiplas e bastante interessante. Vale a pena conferir algumas das mais conhecidas.

Marcha de tríplice apoio - típica das nossas raças Mangalarga Marchador, Campolina, Pampa, Piquira e Campeiro, podendo ser das modalidades picada, intermediária, batida.

Marcha trotada - Típica da raça Mangalarga, sendo considerada uma polêmica entre técnicos e criadores, por soar como redundância. Alegam que ou o cavalo marcha ou trota. De fato a movimentação exclusivamente diagonalizada, porém com um estilo bastante característico, de deslocamentos bastante flexionados, elásticos, levemente alçados e quase sempre ocorrendo a sobre ou ultra-pegada. Tanto pode ocorrer um momento mínimo de supensão para a troca dos apoios bipedais diagonais, como também um rápido apoio monopedal ou quadrupedal. Em ambos estes ultimos casos, o animal não perderia o contato com o solo e o andamento ainda tecnicamente considerado como marchado. A dominância deste tipo de andamento é bastante forte, tanto no diagrama como no estilo.

Paso Fino - típica da raça Paso Fino, sendo uma marcha também de tríplice apoio, predominantemente lateralizada, de deslocamentos bastante curtos,. Porém muito enérgicos e rápidos. Todos os animais marcham com a cauda em forma de anzol, indicativo de brio, bom temperamento de sela. Com o aumento da velocidade os animais podem executar o "corto" e o "largo". Desde o nascimento, os potrinhos (as) apresentam deslocamentos predominantemente lateralizados, o que atesta o caráter hereditário deste tipo de marcha. Porém não é dominante sobre as marchas com predominio de deslocamentos diagonalizados. 

Fox trot - Típica da raça Missouri Fox Trotter, sendo uma marcha predominantemente diagonalizada, na qual o casco posterior do bípede diagonal toca o solo um pouco antes do casco anterior. Interessante é que o animal caminha com os anteriores e marcha com os posteriores. O nome significa a "trote de raposa". De fato é um andamento muito rasteiro. Há uma tendência natural herdável de alguns exemplares em executar este andamento. Mas a maior parte dos animais são treinados por comandos de rédeas e de assento (deslocamento de peso de um lado a outro).

Running Walk - Típica da raça Tennessee Walking Horse, sendo uma marcha de quatro tempos, porém excessivamente lateralizada. De fato, como o nome diz, parece mesmo um passo em grande velocidade, podendo atingir a velocidade do galope reunido. Os membros anteriores são forçados alçarem em demasia, os posteriores ultrapegam os rastros dos anteriores. O cavalo bascula a cabeça vigorosamente, para baixo e para cima, lembrando os movimentos do camelo. As espáduas são muito oblíquas, o dorso-lombo curto, os jarretes curvados. Alguns produtos 1/2 sangue já foram observados com esta movimentação peculiar, indicando uma certa dominância genética.

Rack - Típico da raça American Saddle Horse, sendo um andamento muito rápido, de dissociação diagonal a 4 tempos, no qual cada membro toca o solo separadamente, em intervalos iguais. É um andamento semelhante ao chamado de "esquipado" no Brasil. Geralmente não é natural, requerendo treinamento contínuo com aumento crescente da velocidade, até o limite de transição para o galope. A herança genética deste tipo de andamento especializado ainda não está totalmente clara.

Largo - Típico de algumas familias da raça Paso Fino e de exemplares Mangalarga Marchador e Campolina no interior de Minas Gerais e Estados do Nordeste, sendo uma marcha de triplice apoios, executado no grau máximo de velocidade, até o limite de transição para o galope. Com frequência, deriva das modalidade marcha picada e marcha intermediária.

Andadura de Corrida - Típica do Trotador Americano, charreteiro, das corridas de charretes nos Jockeys, sendo um andamento de deslocamento bipedal lateral simultaneo, porém com um momento de suspensão dos 4 cascos no ar para a troca dos apoios, ao contrário da andadura clássica, na qual a troca de apoios bipedais laterais se dá através de apóio quadrupedal. No Brasil, uma forma mais lenta da andadura de corrida é popularmente conhecida como "guinilha". Esta modalidade de andamento especializado apresenta um mecanismo genético recessivo.

     Existem formas de artificialização dos andamentos que são utilizadas para apresentações de beleza ímpar. Como exemplos, podemos citar o Passo Espanhol e o Piaffe nos cavalos Andaluzes e Luzitanos. No primeiro, o animal caminha alçando graciosamente seus membros anteriores. No segundo, o animal trota com mais elevação, bastante reunido, reduzindo o alcance das passadas, em movimentos quase que em slow motion. Temos o galope reunido, que é uma forma contida, reunida, de conduzir o cavalo, mantendo um grau máximo de flexionamento da cabeça, nuca, pescoço, com deslocamentos também muito felexionados, porém resultando em um galão ( passada do galope ) mais curto, mas sempre muito ritmado, cadenciado. Outras artificializações na dinâmica de locomoção dos equinos agridem a natureza deste belo e inocente animal. Ou, pior ainda , ferem a ética na criação e comercialização. Infelizmente, temos muitos exemplos. Um dos mais clássicos é o que se pratica com a raça Tennessee Walking Horse nos Estados Unidos. Os animais são ferrrados com calços de madeira de até 11cm de altura sob as ferraduras. Tal artifício provoca a elevação extrema da cernelha em relação à garupa, com uma elevação também extrema dos membros anteriores. Os posteriores são forçados a ultrapegar os rastros deixados pelos cascos anteriores e o andamento, originalmente de trote, transforma-se drasticamente para um tipo de andadura desunida, bastante estressante para o sistema locomotor do equino. Na raça American Saddle Breed, um nervo caudal é operado, para manter a cauda sempre elevada durante a movimentação. Na raça Árabe, os animais são levados à um limite máximo de excitação e nervosismo antes da entrada em pista, com gritos, assobios, barulhos de pedras batendo dentro de latas, etc., com o objetivo de forçar uma apresentação de pista com movimentos mais alçados, cauda ainda mais erguida em forma de arco, cabeça bastante elevada, narinas bem dilatadas, usando inclusive produtos de alta irritabilidade no interior das narinas, para aumentar a dilatação. Nas raças de marcha, os andamentos mais diagonalizados são amaciados com o aumento extremo da velocidade, aproximando-se dos limites dos sistemas respiratório, cardíaco e locomotor, inclusive em idades ainda muito precoces, sem um desenvolvimento adequado da ossatura e musculatura. Para amaciar as marchas diagonalizadas utilizam argolas nos cascos anteriores, ferraduras super pesadas, e alguns chegam até a casquear próximo do sangue para que o animal sinta dor no apoio dos cascos e reduza a elevação dos deslocamentos. O fato é que, principalmente no Brasil, os equinos ainda estão expostos a um manejo violento, à base das esporas e chicotadas, embocaduras severas, e outros artifícios que visam ensinar a marchar. Mas raramente um cavalo que aprende a marchar será um vencedor nas pistas de concursos de marcha. E o pior, alguém mais à frente será enganado, quando um reprodutor deste tipo é vedido. Sua prole não herdará o que ele aprendeu, mas sim o que está contido em seus genes.


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